O mês Não

A maioria da população tem um dia Não. Eu vou mais além e tenho um mês Não.
Ora um mês Não é aquele mês que deveria ser removido do calendário do corrente ano, salvava o ano e salvava muitas dores de cabeça ao mesmo tempo.
Fevereiro é o mês dos falecimentos. Faleceu a minha avó. Faleceu um tio do Abade e vamos la ver quem é que mais falece uma vez que ainda faltam dois dias para o final do mês.
Depois, algures ali no dia vinte e tal pensei que o Fevereiro até se estava a decidir ser um porreiraço comigo porque finalmente deixou-me comprar a minha Canon. Mas eis que seis dias depois decidiu armar-se em parvo outra vez. Não me pode ver mais alegre e bem disposta e fez-me mandar um grande tralho do meio das rochas na Ericeira. E conseguir endireitar-me? Era o endireitas. Andei ali a patinar a patinar e não conseguia sair daqui... aqueles lismos escorregavam tanto como azeite no meio de uma berlaitada. A única coisa que me recordo assim que senti o pé a fugir foi 'ai a máquina não' e a seguir aterrei. Podiam ir os dentes, podiam ir os dedinhos o resto não, senão nunca me perdoaria.
No meio disto tudo lá consegui afastar-me daquela langonha saindo apenas com o joelho e o orgulho feridos.
É que nunca mais volto à Ericeira que hoje ia sendo o terceiro falecimento do mês!

Peixinho ao Pateão Nacional

Gostava de perceber porque é que o jogo de cartas do Peixinho não é famoso a nível mundial.
Tenho pensado nisto cada vez mais e mais. Tudo porque o Abade começou a jogar Poker online e tem tentado, sem sucesso, explicar-me o que são o Royal Flush, Full House, High Card. Mas eu apenas consigo perceber o Four of a Kind e mais nada por aí além. Se o Poker movimenta dinheiro em apostas legais e ilegais não percebo porque o Peixinho também não o faz.
Ainda me lembro que quando jogo ao Peixinho perco anos de vida. A tentar sabotar as jogadas dos outros enquanto faço as junções dos quatro naipes. Os nervos de escolher uma carta do molho quando é hora de ir à pesca. Isto sim é um teste às expressões faciais. Agora o Poker... aquilo parecem um molho de cartas esbardalhadas numa mesa e alguém se lembrou 'ah e tal vamos chamar a isto um Full House' e ah tal e porquê? 'Porque a casa está full de parvos a gastar dinheiro nisto'.
Sugiro o Peixinho para campeonatos mundiais, e porquê não ir ainda mais longe e sugerir o 40 Apanha?
Gajas e gajos de nalgas para o ar a apanhar cartas e o mais rápido ganhava a jogada. Até já consigo imaginar o remake da música Poker Face da Lady Gaga nos ouvidos.

Adeus Avó

Não consigo perceber como é que em menos de um ano passaste de uma pessoa saudável, apenas com início de demência, próprio do avanço da idade a uma pessoa acamada que falava comigo não me reconhecendo e que me dizia 'eu gosto muito da Diana, queria ir para casa dela mas sei que ela não pode ficar comigo'... partiu-me o coração ouvir isto da minha avó, de uma pessoa outrora roliça, bonita,  agora magra, acamada, amarrada da cintura para baixo, de fralda. Partiu-me o coração vê-la a definhar sempre que a ia ver.
Ela nunca deveria ter sido arrancada da sua casinha, nunca deveria ter sido arrancada do seu mundo, das suas gatinhas, dos seus vizinhos... mataram-na.
Hoje ao sair de casa para a ir ver ao lar recebo uma ligação do meu pai a dizer que ela tinha falecido há dez minutos atrás. Só pedia que tivesse aguentado mais uma hora, o tempo suficiente de eu a ver com vida. Sei que ela já não estava bem. Ontem já tinha tido um avc, o coração falhava e a pneumonia não ajudava. Das urgências mandaram-na de volta para morrer em casa. Custa-me a aceitar, mas compreendo, é a lei da vida e não há necessidade de prolongar o sofrimento de alguém quando sabemos que não vai ficar curada.
Mas ainda assim apenas queria vê-la viva. Dar-lhe a mão. Chorar junto a ela. Mas agora perdi-a e nunca mais a vou ver.